Análises e Críticas

A cantilena da identidade no futebol - 22/07/2026 - Idelber Avelar

ResumoIdelber Avelar desconstrói a cantilena da identidade no futebol brasileiro, apontando a tautologia de associar vitórias à brasilidade e derrotas à cópia europeia. O autor sugere focar em problemas concretos como liga, arbitragem, calendário e formação de jogadores, em vez de narrativas identitárias.

Idelber Avelar desconstrói a cantilena da identidade no futebol, apontando a tautologia de associar vitórias à brasilidade e derrotas à cópia europeia. O autor sugere focar em problemas concretos: liga, arbitragem, calendário e formação de jogadores.

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A cantilena da identidade no futebol - 22/07/2026 - Idelber Avelar
A cantilena da identidade no futebol - 22/07/2026 - Idelber AvelarFoto: Reprodução · Catavento

A cantilena da identidade no futebol - 22/07/2026 - Idelber Avelar

Já está em operação o mercado de explicações monocausais para a queda da seleção. O problema não é apenas o fato de que uma queda como a brasileira obviamente tem causas múltiplas.

Idelber Avelar critica a explicação monocausal de que a queda da seleção brasileira se deve à perda da brasilidade. Ele mostra que o discurso tem 90 anos, remonta a Gilberto Freyre, e é tautológico: chama-se de tipicamente brasileira a seleção que vence. A solução, para ele, está em problemas concretos: liga, arbitragens, calendário e formação.

Explicações estapafúrdias e preconceito religioso

Entre as explicações estapafúrdias está o puro preconceito religioso que vincula a queda da seleção à mudança demográfica entre os jogadores, da maioria católica para a evangélica. Sobre essa estultice, Avelar agradece a Rodrigo Toniol e Juliano Spyer por desobrigá-lo do suplício de escrever.

A tautologia da brasilidade

Entre as explicações plausíveis à primeira vista, uma repete que o Brasil caiu porque "copiou os europeus" e "perdeu a brasilidade". Substitua europeus por Premier League e brasilidade por ginga, malemolência ou corporeidades subalternas. Dá na mesma.

Seus proponentes não parecem se dar conta da idade dessa explicação, da frequência com que reaparece e de sua estrutura tautológica.

90 anos de discurso

O discurso sobre uma identidade brasileira unívoca no futebol, associada à ginga, tem 90 anos. Gesta-se no Jornal dos Sports de Mário Filho, nos anos 1930, e recebe sua formulação canônica em "Futebol mulato" (1938), de Gilberto Freyre - um gigante do pensamento que não mantinha uma relação de grande proximidade com o futebol.

Em parceria com a definição unívoca de futebol brasileiro, transita a definição também estereotipada de futebol europeu, associado à cintura-dura, força física, chutão ou rigidez tática. Em Freyre, o termo é "futebol anguloso".

Que Europa?

Aqueles que dizem que o Brasil caiu porque copiou a Europa falam de qual Europa? A Espanha, da posse de bola e da superioridade numérica com triângulos móveis de toques? A Itália, do futebol tático, travado e defensivo? A Premier League, da intensidade, dos duelos e das transições rápidas?

Ronaldo e os dribles no meio-campo

Ronaldo associou a derrota de 2026 à falta de dribles no meio-campo. Enquanto Avelar imaginava um filme de terror com um volante brasileiro tentando driblar Olmo e Olise, perguntava-se: Ronaldo se lembra de dribles de Gilberto Silva e Kléberson, meio-campistas do penta?

Claro que não sou contra o drible. Só aponto que a definição do que é brasileiro vai mudando. Em 2002, Zagallo criticou o esquema de Felipão, dizendo que três zagueiros era copiar os europeus e que brasileira era a linha de quatro. Se o Brasil não tivesse vencido 2002, alguém duvida que Felipão teria sido acusado de copiar os europeus?

A tautologia vencedora

Eis aqui a tautologia: associamos as seleções vencedoras à brasilidade. 1970, 1994 e 2002 são equipes que quase nada têm em comum, e é possível imaginar as duas últimas acusadas de europeísmo se tivessem perdido. Inclusive seus técnicos o foram, quando perderam em 2006 e 2014.

Há perguntas legítimas sobre a identidade do jogo brasileiro, mas justificar derrotas com a perda da brasilidade é uma tautologia. Brasileiro chama de tipicamente brasileira a seleção que vence. Com a exceção de 1982, todas as não campeãs foram acusadas de copiar europeus.

Problemas concretos

Cuidemos de problemas concretos: liga, arbitragens, simulação de faltas, calendário, formação de jogadores, comunicação da base com o profissional, transparência nas convocações. O modelo de jogo deve ser discutido no interior desses problemas concretos, não com mistificações.

Perguntas Frequentes

O que é a cantilena da identidade no futebol?

É o discurso que atribui vitórias à brasilidade e derrotas à cópia europeia, uma explicação tautológica que se repete há 90 anos.

Quem formulou a ideia de futebol mulato?

Gilberto Freyre, em "Futebol mulato" (1938), que definiu o futebol brasileiro pela ginga e o europeu pelo "futebol anguloso".

Por que a explicação é considerada tautológica?

Porque chama de tipicamente brasileira a seleção que vence. Se perde, é acusada de copiar europeus - com exceção de 1982.

Quais problemas concretos o autor sugere?

Liga, arbitragens, simulação de faltas, calendário, formação de jogadores, comunicação da base com o profissional e transparência nas convocações.

O que Ronaldo disse sobre a derrota de 2026?

Associou a derrota à falta de dribles no meio-campo, o que Avelar questiona lembrando que Gilberto Silva e Kléberson não eram dribladores.

Análise tática da seleção brasileira História do futebol brasileiro

Lúcia Hartmann Veloso
Sobre o autor · Cronista de Música e Cena Cultural

Anda show e bar de jazz, escreve sobre música ao vivo e a cena que a cerca.

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