Copa do Mundo hipercomercializada da Fifa veio para ficar?
Torcedores que quiserem levar para casa um pedaço da final de domingo (19) da Copa do Mundo podem comprar gramado encapsulado em acrílico, com ingresso gravado em ouro e miniatura de troféu em cristal, por US$ 3.000 (R$ 15,2 mil) na loja online da Fifa. Cerca de 2.000 torcedores também poderão adquirir novos "anéis de campeão", embora os preços ainda não tenham sido anunciados.
A Copa do Mundo hipercomercializada da Fifa veio para ficar? A resposta divide consultores e especialistas. O torneio de cinco semanas nos Estados Unidos, Canadá e México levou a comercialização do evento esportivo mais assistido do mundo a um nível sem precedentes. Os ingressos para a final entre Espanha e Argentina começaram em US$ 4.185 (R$ 21,3 mil), quase sete vezes mais que no Qatar.
Receita recorde e precificação dinâmica
A receita do ciclo de quatro anos deve atingir pelo menos US$ 13 bilhões (R$ 66 bilhões), contra US$ 7,6 bilhões (R$ 38,6 bilhões) da edição anterior. A Fifa adotou precificação dinâmica de ingressos, itens de coleção caros e serviços de hospitalidade de alto padrão. Também introduziu as "paradas para hidratação" patrocinadas, que deram às emissoras mais tempo para vender publicidade.
Grande parte do crescimento veio da venda de ingressos e hospitalidade. A Fifa lançou sua própria plataforma de revenda e reteve comissão de 15% tanto do comprador quanto do vendedor, provocando indignação entre torcedores e preocupação entre órgãos reguladores. Pelo menos três estados americanos iniciaram investigações para apurar se as práticas violaram leis de defesa do consumidor.
Show no intervalo quebra tradição
Em uma tentativa de recriar o espetáculo do Super Bowl, a final contou com um show no intervalo estrelado por Shakira, Madonna e o grupo BTS. A decisão quebrou a tradição do futebol ao impor uma pausa mais longa que os 15 minutos padrão. A Fifa justificou as medidas apontando para as tendências do mercado local e a necessidade de maximizar a oportunidade na maior economia do mundo.
Caso atípico ou novo padrão?
"Não acho que veremos algo assim novamente em nossas vidas. Todos os fatores que levaram a essas receitas elevadíssimas são tipicamente americanos", disse Ricardo Fort, consultor que comandou áreas de patrocínio da Visa e da Coca-Cola. "Acredito que olharemos para esta Copa do Mundo como um caso atípico."
Já Michael Payne, ex-diretor comercial do Comitê Olímpico Internacional, pensa diferente: "Os Estados Unidos permitiram que a Fifa desse um salto gigantesco. Mas não acredito que haverá um grande retrocesso no futuro; um marco foi estabelecido."
Legislação europeia como freio
A legislação europeia provavelmente tornará impossível repetir algumas práticas na próxima Copa, em Espanha, Portugal e Marrocos. A FSE (Football Supporters Europe) participa de lobby para endurecer regras, como proibir a precificação dinâmica, no âmbito da Lei de Justiça Digital da União Europeia.
"Aposto na legislação da UE de proteção ao consumidor para acabar com algumas das piores práticas [da Fifa] em relação aos ingressos", afirmou Ronan Evain, diretor executivo da FSE.
O impacto já foi sentido no Canadá: a província de Ontário proíbe revenda acima do preço de face, reduzindo a revenda em Toronto. Além disso, estádios europeus terão dificuldade em oferecer o mesmo nível de hospitalidade de luxo, e Espanha e Portugal proíbem consumo de álcool nos assentos.
Pausas para hidratação e patrocínios devem continuar
As próprias projeções da Fifa indicam queda de quase US$ 1 bilhão (R$ 5,1 bilhões) na receita com ingressos e hospitalidade em 2030. No entanto, espera-se que algumas novidades, como as pausas de três minutos para hidratação, sejam mantidas, especialmente com o crescimento do público dos EUA. A emissora Fox pagou US$ 485 milhões (R$ 2,5 bilhões) pelos direitos de transmissão e teria recuperado mais da metade com publicidade durante essas pausas.
Os valores de patrocínio saltaram este ano, em parte graças à chegada da Saudi Aramco como maior parceira comercial da Fifa antes da Copa de 2034 na Arábia Saudita. A Fifa espera que o interesse dos patrocinadores cresça ainda mais, apesar de abalos à reputação, como a suspensão de punição a um jogador americano após reclamações da Casa Branca.
Marcos de referência
Fort destacou que as marcas veem a Copa do Mundo e a Fifa como "entidades muito diferentes" e lembrou que, mesmo após o escândalo de corrupção de 2015, os parceiros comerciais permaneceram. "Não acho que exista algo que se possa fazer para prejudicar o interesse na Copa do Mundo", disse.
A Fifa estima que o próximo ciclo gere US$ 14 bilhões (R$ 71,1 bilhões), com novos aumentos em patrocínios e direitos de transmissão. Um executivo sênior de publicidade com vínculos com a Fifa afirmou: "Acho que isso é apenas o começo. Se você acha que a Copa do Mundo está muito comercial agora... espere para ver o que vem por aí."
Perguntas Frequentes
A Fifa vai manter a precificação dinâmica de ingressos?
A legislação europeia, especialmente a Lei de Justiça Digital da UE, pode proibir a prática em eventos ao vivo. A FSE faz lobby para endurecer as regras.
Os produtos de luxo da Fifa continuarão sendo vendidos?
Produtos como gramado encapsulado e anéis de campeão foram lançados em 2026. A continuidade depende da demanda e do mercado de cada edição.
A receita da Fifa vai cair na próxima Copa?
As projeções indicam queda de quase US$ 1 bilhão em ingressos e hospitalidade em 2030, mas a receita total deve subir para US$ 14 bilhões com patrocínios e direitos de transmissão.
As pausas para hidratação vão continuar?
Sim. Espera-se que sejam mantidas, especialmente com o crescimento do público dos EUA e o interesse das emissoras em mais espaço publicitário.
A Fifa enfrentou problemas com ingressos nos EUA?
Sim. Pelo menos três estados americanos iniciaram investigações sobre as práticas de venda de ingressos, e Ontário, no Canadá, já proíbe revenda acima do preço de face.
