# Medicamentos viajam o corpo inteiro para descobrir onde está a dor

> A farmacocinética de medicamentos envolve distribuição sistêmica e afinidade molecular específica por receptores-alvo, processo comparado a uma interação chave-fechadura. A seletividade do fármaco determina a ação localizada, enquanto a automedicação aumenta riscos de efeitos adversos e falha terapêutica. Especialistas destacam que a precisão do tratamento depende de fatores como dose, via de administração e metabolismo individual.

*Catavento · Análises e Críticas · 31 de julho de 2026 · Benedita Lopes Aragão*

Como os remédios agem exatamente na região do corpo onde são destinados? Especialistas explicam o processo de afinidade molecular, a interação chave-fechadura e os riscos da automedicação.

## Medicamentos viajam o corpo inteiro para descobrir onde está a dor

A pergunta é antiga: como um remédio age exatamente na região do corpo onde é necessário? A resposta está na afinidade molecular, um processo físico-químico em que a força de atração e a tendência de moléculas se ligarem de forma estável atuam juntas. Especialistas entrevistados pelo Metrópoles detalham o mecanismo.

## O que é afinidade molecular e como os medicamentos encontram o alvo

A entrada dos fármacos no organismo pode ocorrer por aplicação direta no tecido-alvo ou pela corrente sanguínea. Quando ingeridos, os medicamentos viajam por todo o corpo até encontrar receptores compatíveis, de acordo com a forma complementar com que foram criados. A metáfora clássica é a da chave e da fechadura: o fármaco só "abre" as fechaduras específicas para as quais foi projetado.

"No nosso organismo, existem os chamados receptores, que seriam as fechaduras, enquanto os medicamentos funcionam como as chaves", explica o farmacêutico clínico Tarcísio Palhano, assessor da Presidência do Conselho Federal de Farmácia (CFF). "Independente da via de administração utilizada, o medicamento circula pela corrente sanguínea e só consegue se encaixar nos receptores com formato compatível."

## Fatores que facilitam ou dificultam a chegada do remédio

As características do medicamento e do tecido-alvo podem beneficiar ou dificultar esse encontro. A farmacêutica Mariana Alcântara Araújo Vieira, professora da Universidade Católica de Brasília (UCB), exemplifica: "medicamentos altamente lipossolúveis (afinidade por gorduras) têm entrada facilitada no tecido cerebral".

A seletividade do fármaco também importa. Alguns medicamentos não seletivos podem atuar em vários tecidos e provocar efeitos adversos. "O propranolol é um medicamento cardíaco não seletivo que também é capaz de se ligar a receptores do tecido pulmonar, e por isso não deve ser usado por pacientes asmáticos", diz Mariana.

## Por que a automedicação é perigosa

A automedicação não é recomendada pelos especialistas, mesmo sendo hábito comum. O uso indevido pode mascarar sintomas e atrapalhar o diagnóstico. "Muitas pessoas utilizam medicamentos para tratar a dor de cabeça, mas ela pode ser manifestação de diversas doenças: dengue, um foco de epilepsia, trauma craniano, falta de sono, cansaço ou até fome", alerta Palhano.

O ideal é tratar a causa da doença, não apenas aliviar um sintoma que pode desaparecer e retornar com mais intensidade. Remédios, incluindo os vendidos sem receita, devem ser usados somente com prescrição profissional.

## Perguntas Frequentes

### Como o medicamento sabe onde agir?

Pela afinidade molecular: o fármaco circula na corrente sanguínea e se liga apenas aos receptores com formato complementar, como chave e fechadura.

### O que são receptores?

São estruturas do organismo que funcionam como fechaduras. Cada medicamento é desenhado para se encaixar em um tipo específico de receptor.

### Por que alguns remédios causam efeitos colaterais?

Medicamentos não seletivos podem atuar em vários tecidos, como o propranolol, que se liga a receptores pulmonares e é contraindicado para asmáticos.

### Automedicação pode mascarar doenças?

Sim. O uso indevido esconde sintomas de condições como dengue, epilepsia ou trauma craniano, atrasando o diagnóstico correto.

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Fonte (canonical): https://catavento.art.br/analises-e-criticas/medicamentos-viajam-corpo-inteiro-descobrir-onde-esta-dor/
