Fãs de heavy metal podem tolerar a dor por mais tempo após dias de festival, segundo estudo alemão publicado na revista Scientific Reports em 20 de agosto. A pesquisa, conduzida durante o Wacken Open Air 2023, um dos maiores festivais de metal do mundo, envolveu 122 participantes que passaram por teste de resistência à dor com água gelada, com frequência cardíaca monitorada.
Os resultados mostram que, após a vivência no evento, os participantes mantiveram a mão submersa por mais tempo em comparação com um grupo avaliado antes do início dos shows. Apesar disso, não relataram redução na intensidade ou no desconforto causado pelo estímulo. "Os participantes não acharam a dor menos desagradável. Eles apenas conseguiram suportá-la por um período maior", afirmou a pesquisadora Lydia Schneider, do Instituto Max Planck de Ciências Cognitivas e Cerebrais Humanas.
O estudo partiu da hipótese de que emoções como a raiva poderiam interferir na forma como a dor é vivenciada. O heavy metal, que frequentemente expressa esse tipo de sentimento, foi usado como contexto para testar essa relação. No experimento, os voluntários colocaram a mão e o antebraço em um recipiente com água extremamente fria, e o tempo até retirar o braço foi usado como medida de tolerância. Antes, os pesquisadores registraram a atividade cardíaca por eletrocardiograma, considerando a variabilidade da frequência cardíaca, indicador ligado à regulação do sistema nervoso.
Para evitar interferências, os cientistas analisaram separadamente os participantes que não consumiram álcool ou ingeriram apenas pequenas quantidades, já que a substância pode alterar a resposta à dor. Segundo a equipe, o resultado sugere maior aceitação da sensação dolorosa: em vez de alterar a percepção, a experiência pode ter influenciado a forma como os participantes reagem ao estímulo.
Para os pesquisadores, lidar com emoções desagradáveis de forma direta pode ter efeito na tolerância à dor, incluindo a capacidade de adiar a reação ao desconforto. "O extravasamento da raiva pode ser relevante para pessoas com dor crônica, já que esse tipo de emoção está associado ao aumento da dor quando reprimido", explicou Lydia. Os achados indicam que a música pode ser considerada em estratégias para lidar com a dor. Embora abordagens clínicas priorizem sons relaxantes, o estudo sugere que outros estilos também podem contribuir. Segundo o pesquisador Tom Fritz, que participou do estudo, "em um contexto clínico, a música costuma ser usada para induzir relaxamento, mas, quando se trata de extravasar a raiva, você não necessariamente quer ouvir algo relaxante. Aceitar emoções desagradáveis pode contribuir para a tolerância à dor".
A proposta não substitui tratamentos médicos, mas aponta uma possibilidade para abordagens que levem em conta o papel das emoções na experiência da dor. música e saúde como lidar com dor crônica
