Meloni rompe com Trump e reorienta a estratégia externa da Itália
A primeira-ministra Giorgia Meloni e o ex-presidente Donald Trump oficializam uma ruptura pública, marcando um ponto de inflexão na estratégia externa da Itália. Após meses de interlocução inviável, a intenção de Meloni de servir como ponte entre Trump e líderes europeus foi frustrada por divergências de interesses, provocações do americano e a insatisfação do eleitorado italiano. A Itália agora busca estabilidade em um cenário global volátil.
O que levou ao rompimento entre Meloni e Trump?
A aliança ideológica entre Meloni e Trump, centrada em imigração e na chamada "cultura woke", precedeu a ascensão da italiana ao poder. Em 2019, quando seu partido ainda era incipiente, Meloni marcou presença na CPAC, evento que teve Trump como figura central. Quando Trump foi reeleito em novembro de 2024, Meloni já celebrava dois anos de governo estável. Em janeiro de 2025, foi a única líder europeia a comparecer à posse de Trump. Em abril do mesmo ano, foi recebida na Casa Branca, onde recebeu elogios por seu "trabalho fantástico".
Divergências em tarifas e defesa
O entusiasmo inicial cedeu lugar a divergências em questões como tarifas comerciais e gastos com defesa. O ataque de Israel e EUA ao Irã, em fevereiro, intensificou o mal-estar, prejudicando a Itália com a alta dos preços de energia. Meloni se distanciou da iniciativa militar, enquanto Trump pressionava aliados da OTAN. A Itália negou permissão para que aviões americanos utilizassem uma base na Sicília, um claro sinal de descontentamento.
O papel do papa e os ataques pessoais
Em meio ao conflito, o papa Leão 14 fazia apelos diários pela paz. Contudo, o sumo pontífice se tornou alvo de ataques sem precedentes por parte de Trump em abril. Para Meloni, tais declarações foram inaceitáveis, tornando o choque com Trump inegável.
A influência do eleitorado italiano
Leo Goretti, especialista em política externa italiana e vice-reitor da Rome Business School, aponta que o recuo de Meloni foi influenciado pela derrota em um referendo sobre questões judiciárias, ocorrido semanas após a ação no Irã. "O resultado do referendo foi interpretado como uma manifestação de dissenso de parte do eleitorado em relação a uma líder vista como muito próxima de Trump", afirma Goretti. "Meloni precisou se distanciar, e sabemos que o presidente dos EUA não aprecia ser contrariado."
Insultos públicos e a reação de Meloni
Em junho, Trump acusou Meloni de ter implorado por uma foto ao seu lado no G7 da França, história que ela desmentiu nas redes sociais. Antes de uma reunião da OTAN, ele insinuou que precisava se proteger da "perseguição" da italiana. Em 8 de julho, Meloni declarou: "Não me arrependo de nada" sobre seu "investimento político" com Trump, justificando que o fez por "convicção na unidade do Ocidente".
Críticas da oposição
Semanas antes, a oposição criticou a "estratégia fracassada de subalternidade" a Trump. Elly Schlein, líder do Partido Democrático, afirmou: "Foram muitos erros de política externa deste governo". Goretti analisa: "Com a eleição de Trump, a política externa do governo italiano tornou-se muito opaca. Encontraram-se na situação paradoxal de ter na Casa Branca uma figura de referência ideológica, mas que na prática toma iniciativas que só prejudicam a Itália."
A nova estratégia externa da Itália
Para os próximos meses, a diplomacia italiana deverá intensificar a interação com potências médias. Isso inclui países do Golfo, como Emirados Árabes Unidos, Arábia Saudita e Qatar, bem como aliados como Canadá, Austrália e Japão. "Todos esses países, com suas particularidades, compartilham o fato de que não se beneficiam de forma alguma da desordem global", explica Goretti.
O cenário eleitoral de 2027
Com as eleições parlamentares de 2027 se aproximando, espera-se que Meloni adote um tom mais assertivo em relação à União Europeia. Sob pressão do partido do ex-general Roberto Vannacci, que adota posições mais à direita, Meloni pode proferir declarações mais radicais contra a UE. "Espero uma oscilação entre ataques ocasionais, tomadas de posição polêmicas contra a burocracia europeia, e uma atitude mais transacional na prática", projeta Goretti.
Perguntas Frequentes
Por que Meloni rompeu com Trump?
Após meses de divergências em tarifas comerciais, gastos com defesa e ataques pessoais, a relação se tornou insustentável. O ataque ao Irã e os insultos públicos de Trump contra o papa Leão 14 foram os estopins.
Como a Itália reorientou sua política externa?
A Itália busca fortalecer laços com potências médias como Emirados Árabes Unidos, Arábia Saudita, Qatar, Canadá, Austrália e Japão, reduzindo a dependência de Washington.
O que o eleitorado italiano pensa sobre a aproximação com Trump?
A derrota em um referendo sobre questões judiciárias foi interpretada como dissenso do eleitorado em relação à proximidade de Meloni com Trump, forçando um distanciamento.
Quem é Leo Goretti?
Leo Goretti é especialista em política externa italiana e vice-reitor da Rome Business School, citado como fonte de análise sobre o rompimento.
Como Meloni reagiu aos insultos de Trump?
Meloni desmentiu as acusações de Trump nas redes sociais e declarou não se arrepender do "investimento político" com o americano, justificando como convicção na unidade do Ocidente.
