Onde você gostaria de correr sua última corrida?
A morte de Júlio Barreto após concluir uma meia maratona em São Paulo, no último dia 26, causou comoção midiática e reação da prefeitura paulistana, que anunciou a criação de um grupo de trabalho. A medida, porém, chega tarde: a gestão municipal sempre ficou com a receita de taxas e a gerada por forasteiros, sem priorizar a segurança.
Sem saber, Júlio fez sua última corrida. Se inquirido, talvez escolhesse outro local, ou nem corrida fosse, dada sua intimidade com o pedal. O fotógrafo Caio Guatelli, ex-titular da coluna Ciclocosmo, desta Folha, lembrou-se dele como "um dos caras mais da paz" que já conheceu na bike.
Escolhas que revelam afeto
Perguntei a algumas pessoas onde desejariam fazer a última corrida, caso soubessem da iminência da própria morte. Valia tudo: de prova "major" a cascalho solitário.
Bicampeã da Corrida do Gari, Vanderléia de França disse que voltaria à cidade natal, Poção de Pedras (MA), onde jamais correu, para também rever sua família. Tadeu Guglielmi, que está por oito provas de concluir seu projeto de correr cem maratonas em todos os continentes, disse que o que importa são "as pessoas que escolhemos para nos acompanhar".
O treinador e pioneiro da corrida Wanderlei Oliveira e a professora de corrida do Cepeusp Paula Lavieri optaram por locais bucólicos em que já passaram temporadas, em desafogo a São Paulo. Elegeram as vilas medievais de Regensburg, na Baviera alemã, e Éragny-sur-Oise, perto de Paris.
A maratonista Anamélia Tannus ficou com a maratona de Boston, que disputou seis vezes, e está inscrita para a sétima, no ano que vem. Contou principalmente o fato de ter sido essa, em 2021, a última prova de seu marido, que havia recebido pouco antes diagnóstico de Alzheimer.
Memórias e homenagens
Minha escolha é um fim de tarde ordinário na USP, local mais frequente dos meus cascalhos. Menção especial para Olímpia, a grega, do Peloponeso, onde estive em 2003 e parei para dar passagem a um grupo de cabras.
Quando soube que lhe restavam poucos anos de vida, a jornalista Erika Sallum decidiu intensificar o que adorava fazer: viajar e pedalar. Mesmo debilitada pelo câncer, fez pedais exigentes na Itália e na Colômbia. Seu último rolé foi com o companheiro Caio Guatelli numa praça perto de sua casa, em São Paulo.
Erika, amiga calorosa e generosa, criadora da coluna Ciclocosmo, teve em Caio um parceiro de vida e de pedal. Ambos deixaram o singelo curta "Confie na Bike!". Ao passar pela ciclopassarela Erika Sallum, em São Paulo, algo que faço rotineiramente, pensei nesta homenagem. Na semana que vem completam-se cinco anos de sua morte.
Perguntas Frequentes
O que aconteceu com Júlio Barreto?
Júlio Barreto morreu após concluir uma meia maratona em São Paulo, no dia 26 de julho, causando comoção e reação da prefeitura, que criou um grupo de trabalho.
Qual foi a reação da prefeitura de São Paulo?
A prefeitura paulistana anunciou a criação de um grupo de trabalho para discutir a segurança em corridas, após a morte de Júlio Barreto.
Onde corredores gostariam de fazer sua última corrida?
Corredores como Vanderléia de França, Tadeu Guglielmi, Wanderlei Oliveira e Anamélia Tannus escolheram locais afetivos ou bucólicos, como Poção de Pedras (MA), Regensburg e Boston.
Quem foi Erika Sallum?
Erika Sallum foi jornalista e criadora da coluna Ciclocosmo, da Folha, que faleceu há cinco anos, deixando o curta "Confie na Bike!", com Caio Guatelli.

