Análises e Críticas

Porteiros viram elo contra solidão e isolamento de idosos

ResumoPorteiros de prédios residenciais com moradores idosos tornaram-se agentes informais de vigilância contra o isolamento social. A rotina de cumprimentos diários permite que esses profissionais percebam ausências incomuns e mudanças de comportamento, podendo acionar familiares ou serviços de saúde e interromper ciclos de solidão entre a população idosa.

Em prédios cada vez mais habitados por idosos, porteiros passam a notar ausências incomuns e mudanças de rotina. A relação vai além do cumprimento e pode interromper um ciclo de isolamento social.

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Porteiros viram elo contra solidão e isolamento de idosos
Porteiros viram elo contra solidão e isolamento de idososFoto: Reprodução · Catavento

Aos 76 anos, Mailde da Silva Cândido passou a morar só pela primeira vez. Depois que os três filhos se casaram e o marido e a ajudante morreram, a aposentada mudou-se para o mesmo prédio da filha, Lidiane da Silva Cândido, 45. "Agora, sou só eu e o cachorrinho", conta.

Porteiros se tornaram elo de apoio para idosos que moram sozinhos, percebendo ausências incomuns e mudanças de rotina. Segundo a OMS, um em cada quatro idosos no mundo vive em algum grau de isolamento social, e 11,8% experimentam solidão. Entre as idosas, 13% sentem solidão, contra cerca de 9,9% entre os homens.

Foi conhecendo os porteiros que o medo de ficar só passou. Quando passou mal e se desequilibrou, o porteiro Luiz Carlos Barreto, 45, a segurou, acompanhou-a até em casa e só sossegou quando Mailde estava sã e salva na própria cama. Há um ano morando sozinha, ela não passa um dia sem descer no meio da tarde para tomar um cafezinho com a equipe do prédio. "Descobri que, se eu precisar de apoio, não fico sem ajuda", afirma.

A situação de Mailde se repete em prédios cada vez mais cheios de idosos. Aos 83 anos, Katy Cox começa os dias cedo com Sunny, a cachorrinha com quem costuma caminhar. A rotina é tão conhecida pelos funcionários que bastou Katy não aparecer no horário habitual para que Luiz e outro porteiro percebessem que algo estava fora do padrão. Telefonaram, nada. Interfonaram, nada. Bateram à porta: Katy estava bem, tinha só dormido além do horário. "Achei ótimo que alguém veio ver se eu estava bem", afirma.

Em outra ocasião, Luiz viu pelas câmeras que Katy passava mal na lateral do edifício. Saiu correndo, chamou o Samu e a levou de volta para casa. A norte-americana mora no mesmo prédio há 26 anos, mas estima viver sozinha há 50. Chegou ao Brasil em 1971 para trabalhar como professora por apenas um ano. Ficou. "Aqui, as relações são mais do que cordiais. Você realmente tem amizades que valem para a vida toda", resume.

Especialistas alertam que o risco vai além do socorro imediato. A fisioterapeuta Isabela Trindade, presidente do Departamento de Gerontologia da Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia (SBGG), explica que quem vive sozinho e tem poucos vínculos pode reduzir atividades aos poucos. "Ela sai menos de casa, caminha menos, participa menos da comunidade", diz. Isso contribui para um ciclo de maior isolamento e perda de independência.

A psicóloga Daiana Meregalli Schütz, que escreveu tese de doutorado sobre estilo de vida, saúde mental e solidão em idosos durante a pandemia, orienta prestar atenção na solidão persistente, intensa e indesejada. "Existe uma discrepância entre as relações que a pessoa gostaria de ter e as que ela realmente tem", afirma. Sinais de alerta incluem vazio frequente, percepção de que ninguém se importa, redução do interesse por atividades antes prazerosas, afastamento de contatos, tristeza e irritabilidade persistentes, além de alteração de sono e menos movimentação para sair de casa.

Um estudo da Universidade de Harvard acompanhou a saúde física e mental de 268 homens desde 1938. O psiquiatra Robert Waldinger afirmou ao jornal da universidade que relacionamentos próximos mantêm as pessoas felizes e estão mais ligados à longevidade saudável do que classe social, genes ou QI.

A literatura médica associa solidão e isolamento social a mais depressão e ansiedade, agravamento de doenças cardiovasculares e declínio cognitivo acelerado. Para quem mora só, saber que há uma pessoa conhecida a poucos andares pode representar companhia e segurança sem retirar a independência. Muitas vezes, um "boa noite" ou escutar o próprio nome basta para que o idoso se sinta parte da comunidade.

Benedita Lopes Aragão
Sobre o autor · Pesquisadora de Arte e Memória

Liga o presente da arte ao acervo esquecido, especialista em patrimônio cultural.

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