O Supremo Tribunal Federal (STF) retirou o sigilo do inquérito que apura se o senador Flávio Bolsonaro participou de um esquema de lavagem de dinheiro no financiamento da cinebiografia de seu pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro. O processo foi batizado de Dark Horse, mesmo nome do filme.
A liberação ocorreu após uma sequência de pedidos de ministros por acesso igualitário ao material do caso Banco Master. Gilmar Mendes, Alexandre de Moraes e Cristiano Zanin cobraram do relator, André Mendonça, acesso de todos os ministros ao conteúdo do celular de Daniel Vorcaro. O presidente da Corte, Edson Fachin, pediu que Mendonça ampliasse a publicidade dos autos.
A pressão por transparência cresceu depois que, na quinta-feira (10), Mendonça liberou 15 procedimentos do caso Banco Master, mas manteve fechado o processo do Dark Horse. A decisão foi criticada por Alexandre de Moraes e pela Procuradoria-Geral da República, que a classificaram como seletiva, já que cerca de 180 arquivos continuavam sigilosos. Na sexta-feira (11), Mendonça ampliou o total de processos liberados, e o inquérito sobre o financiamento do Dark Horse deixou de ser sigiloso.
O inquérito contra Flávio Bolsonaro nasceu de uma representação enviada pela Polícia Federal ao Supremo em 8 de julho, pedindo a abertura de uma investigação separada do caso principal do Banco Master. A Procuradoria-Geral da República, em parecer assinado por Paulo Gonet em 21 de julho, não se opôs ao pedido. Mendonça autorizou a instauração no dia seguinte.
Ao todo, oito pessoas são investigadas: o senador Flávio Bolsonaro, o banqueiro Daniel Vorcaro, o ex-deputado Eduardo Bolsonaro, o deputado Mário Frias, o intermediador Thiago Miranda, o executivo Fabiano Zettel, o advogado Paulo Calixto e o corretor de imóveis Altieres Santana.
Segundo a Polícia Federal, as provas vieram do celular de Vorcaro, apreendido quando ele foi preso em novembro do ano passado tentando embarcar para Dubai. Nele, a corporação encontrou um contrato prevendo investimento de 24 milhões de dólares no filme, além de mensagens que ligam esse financiamento a políticos com foro privilegiado.
A PF apurou que o dinheiro saiu de uma empresa brasileira, a Entre Investimentos, ligada a um operador financeiro conhecido como Mineiro, e foi remetido a um fundo americano chamado Havengate Development Fund. Reportagens do Intercept e da BBC, citadas no próprio inquérito, mostram que esse fundo havia sido criado anos antes para um projeto imobiliário no Texas, mas nunca saiu do papel. Ficou inativo até ser reativado, em fevereiro do ano passado, para receber a primeira remessa destinada ao filme. Foram mais de 12 milhões de dólares enviados do Brasil.
As mensagens levantadas pela PF mostram Flávio Bolsonaro cobrando pessoalmente Vorcaro pela liberação dos pagamentos, participando de reuniões e acompanhando o andamento das gravações. Na véspera da prisão do banqueiro, o senador chegou a mandar uma mensagem de apoio a ele. Eduardo Bolsonaro, segundo a investigação, orientou como movimentar os recursos nos Estados Unidos, enquanto Mário Frias é apontado como idealizador do projeto.
A reportagem não conseguiu contato com os oito citados no inquérito.
