Como a Argentina construiu o mito da nação branca e o que a ciência diz hoje
Episódios recentes de racismo no futebol trazem à tona o debate sobre as políticas de apagamento de negros e indígenas nos séculos XIX e XX. Pesquisas genéticas mostram que o ideal de uma população puramente europeia não se sustenta no próprio DNA do país.
O mito da nação branca na Argentina foi construído a partir do século XIX, quando elites intelectuais e governos promoveram a imigração europeia e invisibilizaram negros e indígenas em leis, censos e narrativas oficiais. Pesquisas genéticas atuais mostram que a população argentina nunca foi geneticamente homogênea ou puramente europeia, desmentindo o discurso de que o país seria uma 'Europa na América do Sul'.
O racismo que veio das arquibancadas
No dia 3 de julho de 2026, no estádio de Miami, o influenciador americano Darren Watkins Jr., conhecido como IShowSpeed e dono de mais de 50 milhões de inscritos no YouTube, entrou com a camisa de Cabo Verde para assistir Argentina contra a seleção africana. Quando apontou a câmera para uma torcedora argentina, ouviu, em espanhol, um conselho: que fosse chorar no zoológico. Quatro dias depois, em Atlanta, no jogo contra o Egito, outro torcedor inflou as bochechas, arregalou os olhos e imitou um macaco enquanto Speed, negro, deixava o estádio. A Fifa, que mantém contrato com Speed para transmitir os jogos ao vivo, abriu investigação.
Para historiadores e cientistas sociais, episódios como esse não ocorrem fora de um contexto histórico e cultural. Eles dialogam com uma construção histórica iniciada no século 19, quando elites intelectuais e governos argentinos promoveram um projeto explícito de nação: incentivar a imigração europeia e invisibilizar, em leis, censos e narrativas oficiais, as populações negras e originárias.
O projeto de embranquecimento nas leis e no DNA
A invisibilidade da população negra argentina não é um fenômeno natural. No final do século XVIII, cerca de um terço da população de Buenos Aires era composta por pessoas negras e afrodescendentes escravizadas. O desaparecimento proporcional dessa comunidade ocorreu devido a três fatores principais estruturados pelo Estado, conforme apontam historiadores.
O intelectual que redigiu a espinha dorsal da Constituição de 1853, Juan Bautista Alberdi, não escondia o projeto. Em Bases y puntos de partida para la organización política de la República Argentina, de 1852, escreveu que povoar podia ser o oposto de civilizar: "Poblar es apestar, corromper, degenerar, envenenar un país, cuando en vez de poblarlo con la flor de la población trabajadora de Europa, se le puebla con la basura de la Europa atrasada." Foi explícito sobre quem não servia ao projeto, ao perguntar se os Estados Unidos seriam o país livre que eram caso tivessem sido povoados "com chineses ou com índios asiáticos, ou com africanos, ou com otomanos".
Dois séculos depois, dados genéticos e revisões históricas mostram que a ideia de um país demograficamente homogêneo e puramente europeu nunca correspondeu totalmente à realidade, nem mesmo no sangue da própria população.
O racismo dentro do vestiário
O racismo que apareceu contra Speed não vem só das arquibancadas. Vem de dentro do vestiário. Em 15 de julho de 2024, no ônibus da seleção campeã da Copa América disputada nos Estados Unidos, o meio-campista Enzo Fernández transmitiu ao vivo no Instagram os companheiros entoando um canto contra os jogadores franceses de ascendência africana. A Federação Francesa de Futebol denunciou a Associação do Futebol Argentino (AFA) e a Fifa. O zagueiro Jules Koundé, do Barcelona, reagiu com uma palavra: "Lamentável". Wesley Fofana, companheiro de Fernández no Chelsea, classificou o vídeo como "racismo desinibido".
A reação mais reveladora, porém, veio do próprio Estado argentino. Quando o então vice-ministro dos Esportes, Julio Garro, sugeriu que Messi e a AFA se desculpassem, foi demitido em poucas horas pelo governo de Javier Milei. A Presidência publicou que nenhum governo tem o direito de dizer a uma seleção o que fazer.
A seleção e o apagamento histórico
O reflexo mais visível desse apagamento histórico surge no futebol. Ao longo de mais de um século de história, a seleção principal da Argentina teve apenas três jogadores negros documentados: Alejandro de los Santos (década de 1920), José Ramos Delgado (anos 1950 e 1960) e Héctor Baley (anos 1978 e 1982).
Em contrapartida, as torcidas e até atletas do país acumulam episódios recorrentes de discriminação. Gestos imitando macacos e o uso de termos pejorativos históricos (como "macaquitos", direcionado a brasileiros desde a década de 1920) são rotineiramente registrados em torneios como a Copa Libertadores e a Copa do Mundo.
Para o sociólogo Murilo Mangabeira, mestre pela Universidade de Brasília (UnB) e professor da rede pública do Distrito Federal, a história não explica a hostilidade em si, mas a forma que ela assume. "No futebol, a hostilidade com a torcida adversária não é novidade. Na América do Sul, muito menos. O que me parece ter influência da história é que essa hostilidade apareça na forma de um racismo bem escancarado", afirma. "Não basta dizer que o adversário perdeu. É preciso lembrar que ele é inferior a mim, porque não é branco como eu."
O racismo regional e a particularidade argentina
O padrão tampouco é só argentino. Nesta mesma Copa, a senadora paraguaia Celeste Amarilla, após a França eliminar o Paraguai, chamou Mbappé de "camaronês colonizado" e disse que ele, quando criança, "chupava cocos, e as criaturas mais educadas que escutou foram chimpanzés". O francês respondeu chamando-a de "mulher desprezível, indigna do cargo". O racismo antinegro no futebol sul-americano é regional. Mas a Argentina tem com ele uma relação particular, e mais antiga.
Mesmo diante do discurso oficial de homogeneidade, movimentos negros organizados na Argentina, concentrados em províncias como Buenos Aires, Corrientes e Santiago del Estero, seguem lutando pelo reconhecimento de suas origens e denunciando que a discriminação local também se manifesta fortemente de forma institucional e socioeconômica contra migrantes indígenas e de países vizinhos, como Bolívia e Paraguai.
Perguntas Frequentes
O que é o mito da nação branca na Argentina?
É a construção histórica, iniciada no século XIX, de que a Argentina seria um país demograficamente homogêneo e de origem puramente europeia, sustentada por políticas de embranquecimento e apagamento de negros e indígenas.
Como o mito foi construído?
Elites intelectuais e governos argentinos promoveram a imigração europeia e invisibilizaram negros e indígenas em leis, censos e narrativas oficiais, como exemplificado nos escritos de Juan Bautista Alberdi na Constituição de 1853.
O que a ciência diz sobre a população argentina?
Pesquisas genéticas mostram que a população argentina nunca foi geneticamente homogênea ou puramente europeia, desmentindo o discurso oficial de homogeneidade.
Quantos jogadores negros a seleção argentina teve?
Em mais de um século de história, a seleção principal teve apenas três jogadores negros documentados: Alejandro de los Santos, José Ramos Delgado e Héctor Baley.
O que aconteceu com Enzo Fernández em 2024?
Em julho de 2024, ele transmitiu ao vivo companheiros entoando um canto racista contra jogadores franceses de ascendência africana, gerando denúncia da Federação Francesa à AFA e à Fifa.
O governo argentino reagiu aos episódios de racismo?
Quando o vice-ministro dos Esportes, Julio Garro, sugeriu desculpas de Messi e da AFA, foi demitido pelo governo de Javier Milei, que afirmou que nenhum governo pode dizer a uma seleção o que fazer.
